
ENTREVISTA
PARA O SITE POETAS MORTO'S HP
(Escrito
em português do Brasil)
Nathália Nieri do Site Poetas Morto's HP entrevista Helena de Sousa Freitas em 23/02/2001
Nathália - Helena, primeiramente gostaria de lhe agradecer por conceder essa entrevista ao site Poetas Morto's HP e lhe dizer que é grande o carinho que temos por você... E acredito que não só nós, mas todos os que conhecem seu trabalho, que é muito sensível e de grande valor...
Helena – Eu é que agradeço o vosso interesse. Tenho uma profunda simpatia pela Poetas Morto's HomePage e faço o maior gosto em responder às vossas questões.
Nathália – Quando você resolveu publicar seus trabalhos na Internet e em papel, encontrou alguma resistência por parte de alguém, teve apoio total ou seguiu sua intuição e resolveu publicar "por conta própria?" – Logicamente que esse "por conta própria" está entre aspas, pois acredito que você teve o apoio de muitos. Seu talento é notório e alguém especial deve ter percebido isso e lhe dado grande apoio...
Helena – Eu comecei por editar em papel e
só depois passei a publicar no meio digital. De qualquer forma, em nenhum dos
casos encontrei resistência propriamente dita.
Em termos de apoio, tenho o incentivo da minha família e de alguns amigos e,
sobretudo, uma grande tenacidade para não desistir de escrever apesar de viver
num país onde não se lê muito. Ao nível da Internet, contei e conto com o
apoio do Professor Roberto Pires, webmaster do Literário (www.literario.ezdir.net),
do Paulo Nieri, webmaster da Poetas Morto's HP (www.poetasmortos.ezdir.net) e,
é claro, dos leitores que me vão escrevendo para o e-mail.
Nathália – Teve alguma decepção ou passou por algum momento de aflição quando seus trabalhos começaram a aparecer na Internet especialmente?
Helena – Sempre me senti feliz por ver os trabalhos publicados, seja em papel ou no meio digital. Porém, já tive a experiência pouco agradável de ver os meus textos ou poemas editados sem que tal me fosse sequer comunicado! Tal já sucedeu com edição online, em revista e até em livro, numa colectânea.
Nathália – Esperava alcançar tanto sucesso na Internet, pois aqui no Brasil pelo que me parece você já virou um fenômeno e é bem conhecida. Esperava realmente por isso? E o que determinou seu sucesso na rede mundial?
Helena - Eu não o sei explicar. Quando comecei a editar no meio digital não tinha ainda uma verdadeira noção do seu alcance. Penso que só me apercebi das potencialidades da Internet quando passei a receber correio electrónico de lugares tão distintos como Brasil, EUA, Angola e Londres, ou quando o Professor Roberto Pires me informou de que a página que fizera para mim no Literário estava a ser visitada por pessoas do Japão e da Austrália.
Nathália – Nos fale um pouco sobre você, seus gostos, seus medos, seus desejos, um pouquinho sobre sua vida, sua terra natal, ou seja, Helena de Sousa Freitas por ela mesma...
Helena - Creio ser uma pessoa bastante
simples: aprecio um bom livro, uma ida ao cinema, uma canção ou um passeio ao
ar livre. Apesar de ter nascido em Lisboa, considero mais Setúbal a minha terra
natal. Esta cidade portuguesa fica enquadrada por zonas de grande beleza natural
e tenho até dificuldade em imaginar-me a viver noutro local.
Por trabalhar como jornalista em Lisboa, capital do país, todos os dias faço
100 kms de estrada, ida e volta, mas gosto do meu trabalho, das histórias que
vou conhecendo e, sobretudo, da possibilidade de trabalhar em algo que, num
sentido lato, não está muito longe da escrita de ficção.
No que respeita a medos e desejos... o que mais temo é, sem dúvida, perder
alguém que amo, pelo que os meus desejos vão no sentido de estar com essas
pessoas, de partilhar com elas o que de bom me vai acontecendo.
Nathália – Sem ser indiscreta, mas todos devem estar querendo saber: Helena de Sousa Freitas tem um grande amor? Seria possível saber quem é ele? Você sabia que é uma musa para alguns escritores aqui no Brasil e que tem muitos fãs?
Helena – Tenho um grande amor: o Luís a quem dedico muitos dos poemas que publico. Luís, actualmente meu noivo, é fotojornalista, e trabalha como coordenador desportivo num jornal digital (www.infordesporto.pt). Ele tem conhecimento de que alguns leitores e autores me escrevem poemas, mas não levanta problemas por isso.
Nathália – Sobre a família - pretende se casar, ter filhos, netos, etc...?
Helena – O casamento está para breve, é já em Maio. É claro que pretendo vir a ter filhos, embora não para já. A ideia de constituir uma família harmoniosa sempre me agradou.
Nathália – Qual sua impressão sobre o povo brasileiro e sua cultura?
Helena – Como não conheço o povo
brasileiro pessoalmente, vou guiar-me pela troca de e-mails. Correspondo-me com
alguns autores, leitores e editores brasileiros, e creio que se trata de um povo
afável, que gosta de uma boa conversa (bate-papo, como dizem aí) e se preocupa
com os males do Mundo.
Por seu lado, a cultura brasileira tem muitas semelhanças com a portuguesa,
embora me pareça em certos aspectos mais tolerante e aberta. Sinto que os
brasileiros têm um menor receio do ridículo do que os portugueses, que por
vezes evitam gestos meigos, bonitos, com receio das interpretações alheias.
Nathália – Você com certeza já ouviu falar de Paulo Coelho e deve até ter lido algum livro dele. Poderia me dizer do que achou da obra de Paulo Coelho? Gostaria também de saber se aí em Portugal os livros dele são bem aceites e lidos?
Helena – Julgo conhecer todos os títulos da
obra de Paulo Coelho, embora ainda só tenha lido 'O Alquimista' e 'Nas Margens
do Rio Piedra' (que tenho com dedicatória do autor).
Apesar dos livros de Paulo Coelho serem muito mais místicos do que os da
maioria dos escritores portugueses, ele tem uma grande aceitação em Portugal.
Tenho diversos amigos que lêem tudo o que dele é editado por cá, existindo
mesmo edições ilustradas, em capa dura e para coleccionadores.
Nathália – Poderia me dizer qual seu escritor favorito?
Helena – Admiro a escrita de tantos autores que me é sempre difícil eleger apenas um. No entanto, o primeiro nome que me ocorre face a esta questão é sempre o da escritora chilena Isabel Allende.
Nathália – Qual sua maior influencia literária, ou seja, quem lhe inspirou a escrever? Ou não sofreu nenhuma influencia e adotou um estilo bem seu, bem próprio, pois você tem um grande talento natural?
Helena – Na prosa sinto que tenho
influências nítidas do designado 'realismo mágico', tão comum na escrita
latino-americana. Ao nível da inspiração, o meu dia-a-dia de jornalista tem
imenso peso no que escrevo, nas personagens, nas histórias.
No que diz respeito à poesia, existem autores portugueses que continuo a ler e
que,
involuntariamente, acabam por colocar a sua pena no meu poema: Ruy Belo, Maria
Teresa Horta, RBSotero, Margarida Reimão, Al Berto, António Gedeão, etc, etc.
Nathália – Fernando Pessoa, o que esse grande poeta significa para você em especial?
Helena – Significa, com grande pena minha, algo que continua a ser muito comum: muitos grandes autores só depois de mortos têm o devido reconhecimento pelo seu trabalho (e não quero com isto chamar para mim nenhuma semelhança).
Nathália – Qual sua melhor obra até agora, aquela que você gosta mais?
Helena – Que pergunta difícil! Esta não consigo responder. Penso que gosto de tudo o que escrevi, embora hoje sinta de modo diferente alguns poemas e contos mais antigos. Quando olho para trás e tento avaliar o que escrevi, tenho sempre a sensação de que os meus trabalhos se dividem em dois grupos: os que marcaram um momento, um sentimento, e os que pertencem a qualquer altura e lugar, que eu podia ter escrito ainda ontem ou escrever amanhã.
Nathália – Lhe agrada a nova forma de poesia livre, onde as rimas e os versos não são tão importantes assim, ou você prefere algo mais rimado e dentro de um padrão ou, por fim, as duas formas de escrever lhe agradam?
Helena – Eu gosto da poesia que rima porque essa característica marca uma época e dá musicalidade ao poema. Porém, existem cada vez mais poemas que não rimam e que fogem ao padrões clássicos, sendo da mesma forma admiráveis.
Nathália – Alguns poetas adotam a poesia livre e a licença poética para criar novas palavras (neologismos) e para protestarem contra os governantes, contra o sistema mundial, etc... Você acha válida essa forma de poesia crítica e com neologismos?
Helena – Considero perfeitamente válida a poesia crítica e os neologismos. Os neologismos, as novas palavras que vão surgindo, dinamizam a língua e são um importante auxílio à sua evolução. A poesia crítica tem existência longa. Muitas vezes designada por «poesia de intervenção», ela tem surgido de braço dado com a música e tem sido grande aliada de artistas revolucionários. Acredito que esta poesia vai durar enquanto durar a injustiça e a desigualdade no Mundo, o que, infelizmente, lhe dá uma grande esperança de vida.
Nathália – Você ficou preocupada quando participou de um Concurso de Contos eróticos do site Poetas Morto's HP? Sabemos que esse tipo de literatura não é bem aceite por todos. Alguém lhe fez alguma censura?
Helena – A nível pessoal, entendo a escrita
como um acto de livre expressão e não fiquei
minimamente preocupada por participar num concurso de contos eróticos, algo que
resultou de uma decisão minha, tomada em plena consciência. Se alguém se
sentiu ofendido ou escandalizado com a minha participação, nunca mo deu a
conhecer.
De qualquer modo, eu tenho o direito de escrever o que quiser – desde que não
prejudique directamente e de forma grave o bom nome de pessoas, entidades ou
produtos, evidentemente – e de participar nos concursos que escolher, sem que
ninguém me possa criticar por isso.
Nathália – Como tomou conhecimento do site Poetas Morto's HP e do concurso?
Helena – Descobri o site por acaso, numa pesquisa sobre poesia. Na altura enviei alguns poemas à apreciação do editor do site, o Paulo Nieri, que gostou e as lançou na página. Posteriormente, numa das minhas visitas descobri o I Concurso de Contos Eróticos e resolvi arriscar.
Nathália – Recebeu seu prêmio como foi combinado? Tem alguma reclamação em relação à premiação ou comentário sobre o que recebeu? Pergunto-lhe isso porque muitas pessoas duvidam que o prêmio tenha sido entregue aí em Portugal e isso sempre gera polêmica e levanta suspeita sobre a seriedade do concurso em questão.
Helena – Recebi o meu prémio, que foi até maior do que estava combinado. Além do CD combinado – que escolhi com instrumentais de Marcus Viana – fui premiada com mais dois CDs e com uma lindíssima placa gravada, onde consta o meu nome, a classificação e o nome do concurso. Tudo chegou bem às minhas mãos e com uma brevidade surpreendente.
Nathália – Nem sempre o poeta é entendido e o escritor bem aceite. Existem as academias onde senhoras e senhores de fama e consagração ditam regras, controlam a cultura de um país, resistem aos novos valores - que tacham de medíocres e insensatos - e citam os antigos e famosos escritores e poetas como regras a serem seguidas. Na sua opinião isso está mudando ou ainda são grandes os focos de resistência aos novos valores?
Helena – Em Portugal ainda não me apercebi
– e isto não assegura que não exista – de uma pressão contra «a novidade
literária». Penso até que os júris de concursos privilegiam a ousadia nesse
campo, em detrimento de um texto bonito que nada acrescente ao nível da forma.
Porém, existem muitos escritores com alto nível de vendas que alguns
consagrados e críticos depreciam, alegando que a sua escrita é de «digestão
fácil» e vazia ou, expressão muito utilizada, é uma «escrita pop».
Eu não teço comentários, mas o que é certo é que, se as pessoas compram os
livros, o fazem porque se identificam com o que eles relatam... e isso,
independentemente da qualidade da escrita que muitos questionam, tem o seu peso.
Nathália – Não quero gerar polêmica, nem
criar caso com os ícones da literatura, mas a liberdade de expressão é algo
maravilhoso e uma conquista sem igual para o ser humano, que sobreviveu e
sobrevive a tantas ditaduras do pensamento.
Eis a pergunta: você se identifica mais com a nova geração ou com a antiga
geração de escritores de língua portuguesa e quanto é importante para você
a tradição literária lusitana?
Helena – Tenho lido um pouco de tudo – dos
autores clássicos aos recém-chegados ao mercado – e creio ser bastante
eclética como leitora. Gosto de saber que Portugal tem uma tradição
literária e que soma grandes nomes no campo das letras.
Como me identifico com a escrita em si, independentemente da geração
literária dos autores, tenho autores favoritos em datas muito díspares. Gosto
da lírica de Camões, dos versos mais soturnos de Bocage, da ironia Queirosiana,
mas também dos trabalhos de autores portugueses mais recentes, como José
Saramago, João de Melo ou João Aguiar.
Nathália – Paulo Nieri, da Poetas Morto's HP, gosta de adotar um estilo bem obscuro e alguns chamam isso de mal do século ou byronismo. Você gosta desse estilo, que tem como um grande escritor em suas filas o francês Charles Baudelaire? – Pra quem não sabe, Paulo Nieri é desconhecido e tem seus escritos no site Poetas Morto's HP
Helena – Embora eu não tenha um estilo de escrita sombrio, já li diversos trabalhos do género. Além dos poemas de Paulo Nieri, nos quais aprecio sobretudo a ousadia em denunciar grandes problemas do Mundo, conheço os de outro amigo meu, por sinal também inédito. Ele tem poemas e prosas escritas, como eu costumo dizer, «em dias de chuva» e, tal como na situação de Paulo Nieri, utiliza as palavras para despir situações de hipocrisia, para expor a realidade que se esconde sob certos gestos ou atitudes das pessoas.
Nathália – Você acha que é possível escrever poesias ou qualquer outra coisa no ramo da literatura sem ter sentimentos ou sem se envolver com a obra?
Helena – Na minha opinião, é praticamente
impossível. Sempre que escrevo um poema, um conto, uma crónica, estou a fazer
nascer algo, a criar, e esta palavra – 'Criar' – é incompatível com a
ausência de sentimentos, de emoção.
Em regra, os poemas e prosas têm algo de mim, de uma situação que vi(vi), de
alguma pessoa que conheço, de um caso jornalístico. Assim, nunca conseguiria
escrever sobre isso de forma distante, como se as palavras se estivessem a
alinhar num outro espírito, como se não fosse minha a mão que pega na caneta.
Nathália – Sendo você jornalista, aí em Portugal existe algum controle sobre o que será divulgado em um jornal ou na imprensa em um modo geral ou pode-se trabalhar a matéria da forma como ela é na verdade, sem tirar nem por?
Helena – De acordo com as estatísticas do
Sindicato dos Jornalistas aqui em Portugal, existem profissionais dos Media que
se sentem pressionados pela entidade patronal a «abandonar um assunto» por
este poder prejudicar as relações de amizade, publicitárias ou outras, entre
a entidade visada no artigo e a empresa proprietária do órgão de
Comunicação Social.
Como sou jornalista há cinco anos e já trabalhei em vários locais, também
já me senti pressionada. Na ocasião protestei por não poder cumprir com as
minhas funções, esclareci junto da direcção que o público depressa
entenderia o que estava a acontecer e que o órgão passaria por pouco isento...
e acabei por publicar a matéria sem rodeios.
Nathália – O que você diria aos seus críticos? Bons ou ruins, tanto faz, o que diria a eles?
Helena – Os críticos, como quaisquer outras
pessoas, são livres de ter um juízo formado e de fazerem a sua avaliação
sobre o que escrevo. A única diferença é o alcance da sua opinião, que chega
ao público e pode condicioná-lo face a uma obra e/ou um autor.
No meu caso, não tenho razões de desagrado, mas deixo um conselho óbvio: ler
primeiro com espírito aberto, analisar e criticar – bem ou mal - só no fim.
Nathália – Qual seu maior sonho dentro do campo da poesia e da literatura?
Helena – Os meus sonhos passam pelo aperfeiçoamento da escrita, ao nível da qualidade e da produção, pela publicação, pelo desejo de conseguir leitores que se identifiquem com as minhas palavras e por uma vontade muito própria de mudar o Mundo.
Nathália – Estou perguntando demais e
espero não ter lhe aborrecido muito com minhas
tagarelices, mas sendo minha primeira entrevista com você e minha primeira
entrevista de verdade, fiquei um pouco nervosa, pois percebi através do meu
irmão o Paulo Nieri que me pediu para fazer essa entrevista que você é uma
pessoa de grande talento e digna de nosso respeito, espero não ter sido muito
chata e tomado seu tempo com perguntas tolas.
Fiz essa entrevista com amor e agradeço por você, Helena, ter aceitado o
projeto de um site em sua homenagem, na verdade um novo site, pois uma pessoa
como você já deve ter alguns sites te homenageando. Sendo assim agradeço de
coração e agora lhe dou a palavra para se despedir e fazer suas
considerações finais se assim desejar...
Helena – Para finalizar, quero deixar os
meus votos de muita inspiração, muita poesia e
tranquilidade para manter a Poetas Morto's HP, para promover os novos autores e
para receber os leitores cibernautas que se dirigirem ao site.